O Estado da Rocinha
É difícil construir uma opinião observando de longe os acontecimentos, mas se precedem as informações que estão circulando, o que está acontecendo no Rio é a rendição do estado paralelo da Rocinha frente ao estado oficial. Sem resistência significativa. Talvez apenas por aqueles mais obstinados em morrer lutando, talvez.
Ontem foi preso Nem, o chefe do tráfico. A história desse rapaz impressiona. Até os 25 anos era pai de família, trabalhador da economia formal, tido como muito competente dentro de uma empresa de telefonia. Aí, no ano de 2000, uma de suas filhas pequenas teve uma doença rara. Pobre e desesperado procurou Lulu, então líder do tráfico. Este se comoveu e emprestou 50 mil reais. Para pagar a dívida entrou no movimento. Passados apenas 5 anos morre Lulu, e em seguida seu sucessor, Bem te vi. Nem que em destacou dentro da organização assume a favela.
Ao que tudo indica fez uma boa gestão. Profissionalizou a empresa, e o faturamento em pouco tempo triplicou, chegando a render 96 milhões de reais em dois anos. Uma grande parte desse dinheiro era investida na economia da Rocinha, gerando emprego e renda. Nem proibiu o consumo e venda de crack, num inusitado gesto de privilegiar o social em detrimento do lucro. Só trabalhava com preto e branco. Na política social financiava casas, conseguia medicamentos, distribuía cestas básicas, construiu um ginásio esportivo equipado com academia. “Não tem mendigo aqui” dizia Nem. Na segurança proibia o roubo, centenas de soldados faziam à proteção; dependendo da gravidade havia pena de morte para traição e roubo. Não muito diferente do estado brasileiro, mesmo que este não assuma oficialmente. A política externa era pacifista, não cobiçava territórios de outras facções, só defendia o que era seu. Quanto à polícia do Rio pagava propinas bem mais generosas para evitar conflitos armados no seu território. Apoiou e elegeu vereador o líder comunitário Claudinho da Academia com 11 mil votos. Jogadores de futebol famosos freqüentam a favela para peladas, churrascos e bailes funk. O turismo é autorizado e estrangeiros fazem tour pela favela, uma das únicas possíveis para demanda. Segundo o secretário de Segurança do Rio, José Mariano Beltrame, numa entrevista a revista época, em 2010, diz que Nem “não é tudo isso que dizem. De certa forma, é até um bandido tranquilo. A Rocinha não costuma ser problemática”.
Mesmo sem dar problema, a Rocinha, situada num dos metros quadrados mais caro do Rio, com vista para o azul do mar de São Conrado e para o verde das montanhas da Gávea, com um estado que funciona melhor que o oficial não poderia não pertencer ao estado brasileiro, tem um simbolismo muito forte. E agora será ocupada. Mesmo com exército equiparado com o que havia no Complexo do Alemão, Nem resolveu fugir. Desarmou o ânimo de seus liderados, provavelmente pensando neles, em si mesmo e nos moradores. Foi preso no porta-malas de um Corolla, cujos passageiros se identificaram como da embaixada do Congo e por isso dispunham de imunidade diplomática. Os policias se dispuseram a ir numa delegacia da polícia federal. No meio do caminho Nem tentou resolver a situação mais uma vez enchendo o bolso de famílias de policiais, pobres. Ofereceu um milhão de reais. Dessa vez não deu.
William de Oliveira, presidente do Movimento Popular de Favelas e morador da Rocinha por toda a vida afirma que."Era trabalhador (...). Não era uma má pessoa. Espero que possa pagar por seus crimes e retornar como cidadão à favela para ficar com sua família" Foi o que Nem, 36 anos, disse hoje delegado em depoimento.
A mídia está lhe demonizando, principalmente o jornal carioca O dia, com manipulações grotescas. A elite não quer esse novo rico. Ele não tem sangue azul. E só os de sangue azul podem enriquecer com ilícitos, corrupção ou mesmo com o comércio legal de cigarros, motores que chegam a 280 km/h, álcool e outros produtos que causam mortes, crimes e dor. Os de sangue vermelho, do morro, esses vão pro inferno da cadeia.
Neste final de semana, ao contrário da ocupação do Alemão, que com tanques e intensos tiroteios imprimiu terror para a população esta tenderá pelo pouco tiro. Nem pagou 15 mil reais para ajudar a fuga de cada soldado e recolheu os fuzis. Nos últimos dias espalhou pela favela dezenas de caixas d’água cheias de cerveja e promoveu uma despedida. Firmou com os líderes comunitários que não haveria resistência a ocupação. Tomara que, como todas as outras UPP´s devem ser, esta seja transitória, para que em seguida o estado brasileiro retire as forças de segurança e instalem as de saúde, educação, alimentação, lazer, infra-estrutura e renda e justifique porque merece a soberania na Rocinha. Do contrário tudo não terá passado de mais uma intervenção violenta para satisfazer interesses pútreos, neste caso a Copa do Mundo.
Pablo
12/11/2011
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